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DAS DUAS, DUAS

Atualizado: 5 de dez. de 2023

Segunda Literária no #entocados

Para abrilhantar nossa programação literária convidamos a poeta e artista plástica Dayse Kênya de Morais.


DAS DUAS, DUAS

(vem isso e aquilo)


Se é pra falar de poesia

faço sessão extraordinária;

reconvoco minha fome vária

transformo a letra precária em pura elegia.


Se é pra manchar a brancura do caderno

roubo tinteiros no inferno;

cometo algazarras bizarras

na sacrossanta extensão de meu império.

Se é pra falar da alegria do preto no branco

meu semblante é sério.


Vem, poesia!

Não faz cerimônia na antessala da agonia.

Vem pichar o muro de minha fortaleza vazia.


Vem isso:

sem anestesia nem artifício.

Faz de lamber meu fígado nu

seu grande fetiche – o ofício.


Vem Allan Poe põe tempero!

põe uma montanha-russa no parque do meu

desespero.


Depois só pra dar alívio

sopra uma vaga miragem de paraíso.

Dos espelhos de reflexos indecisos.


Vem manhã

interrompendo com sua claridade de lã

o velório que ninguém mais aguenta.

Intumesce de aquarelas minha massa cinzenta!


Vem interrogação, exclamação, reticência.

Reti...sente-se poesia

a casa é sua!


Embora sua presença chibata doa

poesia a casa é nua;


Embora uma noite de mil açoites

de uma dor que não faz ver estrelas

poesia a casa é Lua;


Embora na sala de estar retalhado

certo Frankstein de sexos dobrados

dance um tango esquisito

com terno e vestido

numa sobreposição sem sentido

não me abandone de espanto

poesia a casa é dua.


Embora todos os emboras

não vai embora.

Espera o tempo que a vida demora.

Esse grande agora...


Minha sala de estar quer mais é ser

pra te acompanhar.


Não venha com buquês meros

(mania de flor tem os canteiros)!


Basta de girassóis amarelos!

que com toda sua alegria radiante

não salvou Van Gogh do maior de seus duelos.


Traz um arranjo de espinhos

e perfure com delicadeza

a fina alvura de minha pele pergaminho.

Faz um riscado cor de vinho.


Transbordamento de tons proibidos

meus versos compridos jorram vermelhos e quentes


ferindo a impecabilidade do razoável com a audácia

quase demente.


Desejo com status de vício

- missionária paixão pelo risco

de riscar entre o papel e o precipício.


Mal vejo uma folha e pá...piro.

Abstinência faz meu império um asilo.


E se sua graça eu não souber receber direito

perdão

senhora dos meus defeitos!

É que meu coração não tem jeito;

só pra ser de esquerda


teima em bater

do lado direito.



- Dayse Kênya, no livro “O Talhe”. 2015.


♦ Poeta, ex-publicitária e artista plástica Dayse Kênya cursou Artes Visuais na Universidade Federal de Goiás e apresentou “Monólogo de muitos” como seu trabalho de conclusão de curso, onde a poeta faz um mergulho na personalidade prolixa de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, que apresenta vários conflitos pessoais e de sua relação com o mundo: “Multipliquei para me sentir, para me sentir precisei sentir tudo”.Dayse tem mais de 30 premiações em concursos de poesia, desde 1989, entre eles, a participação na Antologia Nacional Gilberto Mendonça Teles, em 1993, com o poema “Fóssil agônico”, o primeiro lugar no concurso Kelps de poesia falada, em 2004, com o poema “Das duas, duas” e tem seu livro “Talhe verbal”, premiado em 2º lugar pelo concurso Novos Valores da Fundação Jaime Câmara. Em 2015 lançou 1000 exemplares de seu livro de poesias “O Talhe”, já em 2021 lançou seu mais recente livro “CEM MAIS para o momento”, ambos publicado pela Editora Kelps e muito bem recebidos pelos leitores.


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Apresentação:


“Este projeto foi contemplado pelo Edital de Arte nos Pontos de Cultura Aldir Blanc - Concurso nº 02/2021-SECULT-GOIÁS – Secretaria de Cultura - Governo Federal"




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