"Filhos do Césio": o game brasileiro que coloca Goiânia e o Cerrado no mapa do cyberpunk
- Thiago Resendes
- 20 de mai.
- 4 min de leitura
Desenvolvido pelos programadores Caio Lopes e Felipe Neves, o jogo em produção usa o maior acidente radiológico do Brasil como ponto de partida para uma história de ação, mistério e identidade goiana.
E se o acidente do Césio-137, em 1987, não tivesse acontecido do jeito que conhecemos, e sim aberto um portal para outra dimensão que prendeu Goiânia inteira sob um domo por quarenta anos? É dessa pergunta que nasce "Filhos do Césio", um game brasileiro em desenvolvimento que vem chamando atenção pela ambição da história e por algo raro no universo dos videogames: colocar Goiânia no centro de tudo.

Por trás do projeto estão os programadores Caio Lopes e Felipe Neves, a dupla responsável por dar vida a esse mundo.
Vale o registro: o jogo parte de um episódio real e doloroso da história de Goiânia, o acidente do Césio-137, tratado como inspiração ficcional e com o devido respeito à memória das vítimas.
A premissa: 1987 reimaginado
A história parte de um "e se" sobre um evento real da nossa cidade. No jogo, em 1987, uma megacorporação chamada Inverse tenta engarrafar energia quase infinita detonando uma carga de Césio-137. Em vez de uma bateria revolucionária, o experimento rasga um buraco para outra dimensão, uma fenda que ergue um domo intransponível de 10 km de raio e prende a cidade inteira lá dentro, a própria empresa junto.
Da fenda passam a vazar radiação, fragmentos de tecnologia alienígena e criaturas. A explosão mata centenas e transforma outras tantas pessoas nos Filhos do Césio, os únicos resistentes à radiação e capazes de enfrentar o que sai do portal. E o detalhe mais sombrio é que ninguém jamais soube que a Inverse causou tudo.

Quarenta anos depois, você é Cora
A trama principal salta para 2027. A cidade segue presa, e a Inverse domina tudo, dizendo, é claro, que vai resolver o problema. A empresa paga bem os Filhos do Césio para caçar criaturas e coletar dados perto da fenda. O que eles não sabem é que, a cada missão, estão apagando as provas de que a própria Inverse é a culpada.
Você joga como Cora, uma Filha do Césio de dezenove anos: competente, desconfiada, filha de uma sobrevivente da explosão. Ao longo da aventura, ela vai desenterrar uma verdade ainda pior do que a fenda, e precisar escolher de que lado da história quer estar.
Ação de arena com consequências
Na jogabilidade, "Filhos do Césio" se apresenta como um action-RPG de arena em ritmo survivor-like, no espírito de combate de jogos como Vampire Survivors, com a ambientação densa de um Transistor. Você se movimenta, enfrenta hordas de criaturas e a habilidade está em se posicionar, desviar e usar poderes na hora certa.
O grande trunfo está embaixo do combate. Cada criatura capturada e cada escolha inclinam silenciosamente a balança rumo a um de sete finais diferentes. Entregar uma criatura à Inverse rende armas; entregá-la à resistência rende conhecimento. Investigar a fundo destrava os melhores desfechos. O jogo nunca avisa qual final você está construindo: você descobre quando chega lá. É uma mecânica que convida a rejogar e a discutir teorias.
Goiânia como protagonista
Aqui mora o coração do projeto. Em vez de Tóquio ou Los Angeles, os cenários de sempre do cyberpunk, "Filhos do Césio" mergulha de cabeça numa Goiânia brasileira, tropical e reconhecível, agora apodrecendo sob um céu artificial, com o neon corporativo da Inverse enxertado por cima das ruínas.
As arenas são locais reais da cidade reimaginados: a Praça do Bandeirante, o Teatro Goiânia ocupado pela corporação, o Mercado Central virado mercado-negro de tecnologia, o Estádio Olímpico, o Zoológico tomado por animais mutados. E a proposta vai além da geografia. A cultura goiana está no DNA do jogo, das praças ao pequi, do PitDog à cena de rock e eletrofunk. É o nosso Cerrado, a nossa cidade e a nossa história, algo que pouquíssimos games no mundo se propuseram a fazer.

Cyberpunk tropical: a identidade visual
O visual mistura três camadas que se combinam conforme a distância da fenda: o cyberpunk corporativo da Inverse (neon, holografia, frio e limpo), o horror extradimensional da fenda (orgânico, errado, sem lógica) e a Goiânia real (arquitetura e marcos reconhecíveis, decadentes, sob clima tropical). Nas bordas da cidade dominam o concreto e o neon; perto do centro, o horror engole tudo.
A protagonista Cora já ganhou uma caprichada arte em pixel art, com seu traje escuro riscado por linhas de energia em azul-ciano e a icônica pistola Césio-137. É uma identidade visual que gruda na memória.
Quem está por trás: Caio Lopes e Felipe Neves
Projetos assim só existem porque alguém decide arregaçar as mangas e construí-los, linha por linha. Caio Lopes e Felipe Neves são os programadores que dão forma a "Filhos do Césio", transformando uma ideia poderosa em mundo jogável, sistema de combate, sete finais ramificados e uma cidade inteira sob um domo.
Desenvolver um game autoral, com narrativa ramificada e ambientação regional, é um trabalho de fôlego e paixão. A dupla aposta em algo que o mercado raramente vê: uma produção independente brasileira que olha para a própria terra, a própria história e a própria cultura.
Por que ficar de olho
"Filhos do Césio" ainda está em fase de desenvolvimento, mas já mostra a que veio: uma premissa original e corajosa, uma protagonista marcante, mecânicas que valorizam a escolha do jogador e um orgulho enorme de ser brasileiro e goiano.
Num cenário de games dominado por grandes estúdios estrangeiros, ver dois desenvolvedores construindo um mundo a partir da nossa própria história é o tipo de iniciativa que merece torcida, atenção e apoio. Fica o convite para acompanhar de perto a jornada de Cora, e a de quem está criando tudo isso.


