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LOBO SOLITÁRIO - O GUERREIRO DAS ESTRADAS

Atualizado: 8 de dez. de 2023

Reciclando o Crimeia - Parte 2


Valtercilio Pereira Alves, 62 anos, mais conhecido como Lobo Solitário, o Guerreiro das Estradas, não passava despercebido por onde ia recolhendo lixo reciclável. Esta entrevista foi publicada na edição de maio de 2012 do Jornal Crimeia. Feita de supetão há dez anos ao encontrá-lo pelas ruas do Crimeia. Nesta época, já há mais ou menos outros dez anos, o via circular pelo bairro, com sua carroça toda equipada e um som em alto volume. Percorria as ruas da região junto com os seus cachorros que o ajudam na tarefa de recolher lixo reciclável. Não tinha quem não se admirasse com a cena. Nesta entrevista, Valtercilio Pereira Alves, o Lobo Solitário diz porque optou por esta vida já que foi lutador de Kung-Fu, soldado do Exército e da Polícia Militar. Fala também da importância do respeito ao Meio Ambiente e das coisas ruins e boas que viveu, na época, na lida diária como catador de material reciclável.

Carlos Pereira

Boa viagem a todos


Entrevista publicada na edição de maio de 2012 do Jornal Crimeia

Jornal Criméia - Além de trabalhar com material reciclável, o que o senhor fez na vida?


Lobo Solitário - Sou mestre de Kung-Fu e Shotokan. Primeiro fui soldado do exército, depois fui soldado da PM, aí eu resolvi sair porque queria trabalhar de forma diferente .


Jornal Criméia - Como foi a sua história de lutador de artes marciais?


Lobo Solitário - Fui faixa preta quarto Dan. Fazia demonstração. Quebrava dez telhas na cabeça. Rodo em arame farpado sem camisa. Quebro trinta garrafas e deito o rosto em cima. Deito de costas nos cacos com dois homens de oitenta quilos pisando em cima de mim. Passo a carroça em cima do peito com os cacos das garrafas na costa. Faço demonstração de tchaco. Tô com sessenta e três anos e ainda faço estas demonstrações.


Jornal Criméia - Porque o senhor resolveu abandonar tudo isso e trabalhar com material reciclável?


Lobo solitário - Eu sempre quis ser independente. Fazer as coisas do meu jeito. Estou meio indignado com o sistema. Só pobre e preto que vai preso. Você trabalha no sistema oficial e não é valorizado. Muita gente rouba, mexe com droga e não acontece nada. A polícia é assim. Quem tem rabo de palha tem medo da polícia. Aqueles que anda direito acabam sofrendo com a polícia. Acho que o policial tinha que ser melhor preparado. Muitos trabalhadores vão para cadeia e muitos bandidos continuam soltos. Eu não me habituei às regras da polícia. (Lembro a ele que já ouvi em alto bom som na carroça estilizada dele, Beatles e Raul Seixas – no início da entrevista rolava um sertanejo pop. Pausa. Logo após o Lobo Solitário coloca Raul Seixas em alto e bom som “O Dia em que a Terra Parou”.



Jornal Ceiméia - O Senhor é casado. Tem filhos?


Lobo Solitário - Eu morei junto. Tenho filhos. Com a Édna eu tive um casal. Jonatan tem vinte anos e Jennifer tem 14 anos.


Jornal Criméia - Como surgiu esta ideia do Lobo Solitário, o guerreiro da estradas?


Lobo Solitário - Dei baixa na polícia e vim morar na Vila Monticelli. Tinha um cachorra, a Pantera. Comprava carne, leite, catava papel, guiava a carroça. Eu ensinei tudo para ela. Fui a São Paulo a pé com a pantera para participar do Programa do Ratinho e ganhei três mil reais. A proposta foi feita pelo Homem do Chapéu Preto em Goiânia. Gastei 72 dias para chegar em São Paulo. Voltei de carro. Aí, com o dinheiro, resolvi incrementar a carroça. Isto foi em 2001. Rodo toda a região catando papel. Se eu acho alguma coisa que possa estar perdida no lixo procuro o responsável para devolver. Já o Lobo Solitário eu criei após assistir a um filme do Stallone.


Jornal Criméia - Como é esta sua relação com cachorros?


Lobo Solitário - Eu tenho oito cachorros. Todos foram treinados A Pantera foi filmada até pela televisão, pela UFG. Tenho dois filmes com ela comprando carne, catando papel, guiando a carroça. A Pantera morreu. Outra cachorra também morreu atropelada. O dinheiro que eu tinha, gastei tratando da Pantera e de outra cachorra que foi atropelada . Consegui ajuda do Jornal Diário da Manhã para tratar das minhas cachorras. É muito difícil conseguir ajuda para tratar dos meus cachorros. Os vereadores e deputados não tão nem aí. Este povo só quer para eles .


Jornal Criméia - E este espaço aqui onde você coloca o lixo reciclável?


Lobo Solitário - O proprietário, que mora nos EUA, deixou que eu cuidasse da área pelos próximos 2 anos. Vou fazer um barraquinho aqui e utilizar a área como depósito. Quem quiser ajudar pode me dar material de construção. Tô feliz. Deus me ajudou a arrumar um lugar para eu ficar. Após dois anos, quando ele for vender a área, disse que vai me levar pra fazenda. Moro de aluguel em uma casinha na Monticeli, sem nenhuma estrutura. Não tem água e nem esgoto. Moro sozinho, eu, meus cachorros e minha égua. Tenho alguns amigos também.


Jornal Criméia - Como o senhor vê esta sua contribuição com o meio ambiente?


Lobo Solitário - O meio ambiente poderia ser muito melhor se os políticos fossem mais honestos. Podiam fazer leis obrigando as prefeituras a colocar lixeiras nas calçadas. Desta forma evitaria lixo nas ruas. Onde eu passo, cato papel, limpo a área. Se meu cavalo cagar na rua eu paro e recolho a bosta, dos meus cachorros também.


Jornal Criméia - Como é o seu dia a dia?


Lobo Solitário - Ando o dia inteiro com os meus cachorros e a minha égua. A comida que ganho divido com eles. Nunca bati nos bichos. Sou contra bater. Acho que tinha que ter uma lei proibindo a chicotada nos animais.


Jornal Criméia - O que mais te marcou nesta história de catar lixo reciclável ?


Lobo Solitário - Teve muita coisa boa e muita coisa ruim. Uma vez fui a Brasília conversar com o presidente Lula. Cheguei lá o Lula não tava, tinha viajado. Fui de carroça. Na volta uma loira me pediu carona. Ficou quatro dias viajando comigo. A gente namorou né. Parávamos na beira do rio, pensávamos, fazíamos almoço e janta. Aí deixei ela aqui em Goiânia e nunca mais a vi. Outra história boa é quando cheguei para catar papel em uma loja e encontrei mais de oitocentos reais em uma caixa. Voltei e entreguei o dinheiro para a mulher. Ela me abraçou, me levou para a porta do comércio e me deu o dinheiro para que eu pudesse modernizar minha carroça. Honestidade prá mim é fundamental. História ruim tem muitas também: Acho ruim tá na rua com a carroça com carros atrás, as pessoas buzinando, xingando a gente. Um dia um carrão fez isso e eu resolvi descer da carroça. Deitei na frente do carro e disse: “se tá apressado passa por cima de mim e da égua”. Outra foi quando eu fui separar papel no bairro Negrão de Lima perto de um prédio. Um homem ficou ironizando da janela de um apartamento. Todo dia era a mesma coisa. Eu falei para ele: “é melhor catar lixo, do que roubar. É preciso respeitar as pessoas. Um dia achei uma música que dizia assim: “...o diabo tá me olhando”. Colocava o som bem alto. Ele sumiu. Eu gostaria que as pessoas estruturadas fossem mais educadas, ajudassem os pobres e não virassem as costas para as pessoas que tem pouca coisa.


Jornal Criméia – Bom, vamos ao tradicional depoimento final do Jornal Criméia. Fique à vontade.


Lobo solitário – Eu quero que todos sejam felizes, ajudem os pobres. Não fazer pouco caso das pessoas pobres, de quem cata papel. Sou contra a discriminação. O pobre e o negro são discriminados em Goiânia. Todo mundo é igual. Todo mundo é irmão. Já fiz muita coisa. Hoje cato papel. Esta é minha cena. Este foi o caminho que Deus me deu. É preciso ter paciência, ter mais carinho com as pessoas humildes, mais pobres. Quem anda de carro tem que ter cuidado, respeitar as pessoas. É preciso estar sempre disposto para ajudar o próximo. É preciso ajudar os idosos. Amanhã você será um idoso também. Não despreze as crianças, os pobres, os negros e nem os idosos. Agindo assim você estará desprezando a si mesmo. (Ao encerramento da entrevista o som da carroça tocava a música Gita de Raul Seixas e Paulo Coelho).


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