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João Ferrim - Histórias do futebol de várzea

Vamos trazer hoje na plataforma #entocados da A Toca Coletivo, no resgate do Jornal Crimeia, uma entrevista reeditada, realizada em 2011 com o desportista varzeano João Ferrinho, ou João Ferrim, técnico e jogador do Canto do Rio, o primeiro time de futebol do terrão do Crimeia Leste. Entre um gole e outro de cerveja pelos bares do bairro, ele nos conta como era o futebol de várzea no Crimeia Leste antes do campo de terra virar praça. Suas lembranças remontam a um tempo, nas décadas de 60, 70 e 80, em que ainda se jogava futebol por amor.

Boa Leitura



João Ferrim

Histórias do futebol de várzea


João Pires Pereira, o João Ferrinho. Nasceu no dia 30 de agosto de 1940 em Hidrolândia. Morava em uma fazenda. Chegou no Criméia Leste no dia 22 de abril de 1962. Veio aos 18 anos com os pais a convite dos tios que já moravam no bairro. Hoje, aos 70 anos, conta com emoção as histórias do futebol de várzea na região do Setor Criméia Leste nas décadas de 60, 70 e 80. Jogou e foi técnico do primeiro time de futebol do bairro, o Canto do Rio. João Ferrinho é mais um personagem da região que conta a sua história para o Jornal Criméia.

Boa viagem a todos

Reportagem: Carlos Pereira

Entrevista publicada em março de 2011 no Jornal Crimeia

Jornal Criméia – Pra começar, porque o apelido de João Ferrinho?

João Ferrinho – Bom, eles falavam que era porque eu batia demais, chegava a “butina”, dava muita botinada, pancada (ri). Mas na verdade eu não era violento. Chegava duro, mas sem violência. Jogava para ganhar o jogo, chegava junto. Jogava na bola. Naquele tempo os juízes não marcavam tanta falta como agora, o jogo corria. A gente podia chegar junto. Hoje não pode encostar no jogador que ele cai e o juiz marca falta, dá amarelo e expulsa. Tá difícil de jogar. Antigamente o futebol era mais gostoso, mais na raça. Hoje o futebol é muito estudado. Antigamente o jogador jogava por vontade, hoje joga por dinheiro. As crianças de hoje já treinam pensando em ficar ricas com o futebol. Jogador de futebol profissional hoje é como artista. Antes era amor, Hoje é o dinheiro.

Jornal Criméia – Como é a história do Canto do Rio? O time foi realmente o primeiro a ser montado no Setor Criméia Leste?

João Ferrinho – Foi o primeiro time do Criméia Leste. Quando cheguei aqui, joguei primeiro no time do Nova Vila com o seu Miguelzinho. Ficava na reserva no time de cima e jogava no time de baixo. Aí o Seu Lázaro me convidou para jogar em um time aqui no Criméia Leste em 1966, era o Canto do Rio. Neste ano disputamos um campeonato e fomos vice-campeões. Fomos campeão do torneio início e vice campeão do campeonato amador de futebol interbairros organizado pela federação de Futebol. A decisão foi na Vila Redenção. A bola foi saindo e com trinta segundos eu fiz um gol. Jogava no time o Fogueira que morava no Setor Norte Ferroviário. Ele não tinha os três dedos na mão. Fiz a jogada com ele. O Canto do Rio foi fundado por Seu Lázaro. Eles falavam que era por causa dos rios da região, o Meia Ponte, Córrego Botafogo, Anicuns, o Ribeirão João Leite e a represa do Jaó. Era tudo cercado por águas. Ainda não tinham as pontes. O Criméia Leste era totalmente isolado de outras regiões. O Canto do Rio não foi campeão mas sempre chegou perto. Foi vice três vezes. Acho que não era pra ser. É coisa de Deus.

Jornal Criméia – Mas o senhor não era zagueiro?

João Ferrinho – Neste tempo eu era atacante. Era ponta direita. Já tava com 20 e poucos anos.Depois virei Zagueiro porque tava faltando jogador na zaga com garra pra não levar gol. Na frente tava muito cheio de gente, então virei quarto zagueiro. A zaga do nosso time tava levando gol demais. Não era craque não, mas erra guerreiro.


Jornal Criméia – O Seu Lázaro então foi o fundador do Canto do Canto do Rio?

João Ferrinho – Foi. Ele era genro do Perasto que já se mudou daqui.

Jornal Criméia – Quem jogava no Canto do Rio quando o senhor entrou no time? Quais nomes o senhor lembra?

João Ferrinho – o Goleiro era o Valdir. Marinho, lateral direito que inclusive jogou no Goiás . Zé Sapato, zagueiro central. Perasto, quarto zagueiro. Aberci, lateral esquerdo. No meio de campo jogavam Zé Nero e Adilson. Na frente jogava eu de ponta direita, Fogueira e...(não lembra o nome, repete Zé Nero). Adilson, filho do Seu Geraldo, era o craque do time.

Jornal Criméia – Quais histórias o senhor lembra do Canto do Rio?

João Ferrinho – Disputamos muitos campeonatos de Várzea pela cidade de Goiânia. Começamos na segunda divisão do futebol amador. Depois passamos para a primeira. Tinha campeonato com 18 times de várzea de vários bairros. Criméia, Jardim América, Setor Pedro Luduvico, Palmito, Novo Mundo. O Canto do Rio era forte. Muitas vezes tivemos na liderança mas, infelizmente, nunca fomos campeões. Fomos vice três vezes. Jogamos no Canto do Rio até 76. Teve campeonatos que tinha 60 times disputando.

Jornal Criméia – O senhor se lembra de uma grande briga ou outra história envolvendo o canto do Rio?

João Ferrinho - Me lembro de uma grande briga em Aparecida de Goiânia. Um jogador do nosso time se estranhou com outro do time deles e aí o bicho pegou. A torcida também entrou na briga Nós reagimos e apanhamos batemos também. Parece que foi o Tirolinha, irmão do Quita que se envolveu primeiro na confusão. Ele deu um tapa no "caboco" do outro time. A confusão foi grande mas graças a Deus acabou tudo bem.

Jornal Criméia – O senhor jogava e era o técnico do time?

João Ferrinho – Eu organizava. Era técnico e jogava. Tinham outros que ajudavam muito. Torcedores. O Seu Jorge do Bar. O Seu Lázaro. Muita gente ajudou. Como técnico eu não era durão, mas os jogadores achavam que era, falava o que tinha que falar. Vamos partir pra frente, jogar pra ganhar, mas vamos com raça. Podemos até perder o jogo mas temos que acreditar na vitória até o final, sem desânimo. Não quero ver ninguém de corpo mole e nem gente com medo de cara feia. A gente precisa ganhar o jogo. E não pode errar gol não, surgiu a oportunidade tem que fazer. (faz uma preleção): “Seu Zé Ribamar (goleiro) é o seguinte, cê tem que fechar o gol, nós da zaga não vamos dar moleza não, “vamo” chegar o chinelo, não deixa passar ninguém não, pode chegar a butina. Se for expulso tem jogador para entrar no próximo jogo. Precisamos da vitória de qualquer jeito. É pra chegar junto. Eu não quero que vocês da frente fiquem escondendo o jogo e nem fazendo gracinha, é pra jogar mesmo, fazer gol, se fizer gracinha ou fazer corpo mole eu vou tirar e por outro no lugar”. Já mudei três, um atrás do outro, porque estavam com o corpo mole...então os caras jogavam com vontade, tinham que correr mesmo se não o homem puxasse. Na hora de entrar em campo tinha a reza, é claro. Todo mundo abraçado e rezando o Pai Nosso e a Ave Maria.

Jornal Criméia – Como é que era o dia de jogo aqui no Criméia?

João Ferrinho – Era bom demais sô. Isto aqui ficava cheinho de gente aqui na beira do campo (hoje Praça Vicente Sanches de Almeida). O domingo que não tinha jogo era triste o Criméia. O povo tudo estranhava. O Canto do Rio era querido aqui. Trocávamos de roupa aqui no Bar do Toim (hoje Aqui Chopp do Tico e do Zói). Tinha hora que pra entrar em campo era uma loucura, tinha que sair pedindo licença para as pessoas de tão cheio que tava. Enchia mesmo. Se fosse cobrado daria muito dinheiro porque o povo queria ver os jogos. Quando a gente chegava para jogar já tinha muita gente esperando na beira do campo, principalmente nos jogos entre Canto do Rio e Papelaria Natal. Lembro de um jogo em que ganhamos da Natal de virada por 4 a 2. Fizeram um a zero no primeiro tempo, no início do segundo fizeram outro. Aí eu comecei a gritar com os meus jogadores, “vamo” lá gente, perdido por 2 perdido por mil, é pra chutar pra gol, sem medo de cara feia. Ganhamos na raça.Tivemos sorte também. Mas o jogo era sempre duro, era um zero, 2 a 1. Já jogava de zagueiro nesta época. Cheguei duro neles.

Jornal Criméia – Quem jogou no Canto do Rio que acabou virando profissional?

João Ferrinho – Me lembro do Falcão em alguns jogos.

O Criméia – Mas o Falcão (jogou no Vila Nova), é de uma geração mais nova.

João Ferrinho – Mas jogou algumas partidas. O Valdeir, que foi para o Atlético, também treinou com a gente na fase final do canto do Rio. O Gildásio também jogou no Canto do Rio. Eu peguei o Canto do Rio para treinar em 66. O time foi fundado pelo Seu Lázaro (já falecido) no início da década de 60.

Jornal Criméia – Aqui na região quais eram os maiores rivais do Canto do Rio?

João Ferrinho – O Time da Papelaria Natal e da Papelaria Ritz. Os confrontos pegavam fogo. Eles tinham dificuldade de jogar com a gente. Era difícil o jogo. O time da Natal era muito bom, mas o nosso também. Eles tinham muita dificuldade em ganhar da gente. Acho que ganhamos mais jogos que perdemos para o time da Papelaria Natal. Ganhamos uma semifinal contra eles quando fomos vice-campeões de um campeonato de futebol de várzea. O Vera Cruz foi o campeão. Acho que a Natal ficou em quarto. Tinha também grandes confrontos com a Papelaria Ritz. O campo do Criméia ficava cheio de gente.

Jornal Criméia – Quais jogadores o senhor lembra desta época da Natal?


João Ferrinho – Ah! muita gente. O Macarrão jogava no meu time. Na Natal tinha o Zulu, Delci, Jorge Carvoeiro, Badá. Tinha muitos bons jogadores em vários times. O Rubinho, Delci, Palmeron que também era do meu time, Derrinha, Flecha, Lelinho, Palmi que jogou no Goiânia, Quita, Luís Cocá, Zé Ribamar (goleiro), Evangelista, Osvaldo, Marcelo (filho do Oswaldo), Otoniel também jogou no meu time, era bom de bola; o Nenzinho, tinha muito jogador bom no Canto do Rio. O Geraldino, o Nina, o Domingos também jogaram no meu time. Eu não era bom de bola, não era craque, mas jogava para ganhar o jogo. Futebol é muito ingrato, na mesma hora em que você ta por cima você pode cair e ficar por baixo. Muitos jogadores que eram ídolos no início da carreira terminaram a vida sem nada.

Jornal Criméia – O que o senhor lembra desta época?

João Ferrinho – Ah, era uma amizade muito grande aqui. Não interessava o time que jogava. Canto do Rio, Papelaria Natal, Ritz, o time dos Primos, Todo sábado e domingo o Criméia era uma grande festa aqui na Praça Vicente Sanches, onde antigamente era o campo de terra. Era muito bom. Uma grande festa. Os moradores enchiam as laterais do campo para ver os jogos. O dia que acabou o campo foi muito triste, mas fazer o quê, é o progresso né.

Jornal Criméia – O Senhor acha que muitos jogadores do Criméia daquela época poderiam ter jogado em times profissionais.

João Ferrinho – Sim, mas o futebol profissional na época não era bem remunerado. Antes tinha pedreiro, pintor e o time era bom. Depois que começaram a ganhar dinheiro, os jogadores também começaram a fazer corpo mole. Hoje o povo joga bola mais por dinheiro, antes não, tinha amor, jogavam porque gostavam mesmo. Muita gente vinha de longe para jogar o campeonato amador, de ônibus, bicicleta, na época quase não tinha carro e moto.



Jornal Criméia – O que mais o senhor lembra desta época rica do futebol de várzea de Goiânia?

João Ferrinho – Ah, tem muita história. Jogávamos muito também no interior. Fomos duas vezes a Campestre, ganhamos as duas vezes. A gente ia de ônibus na maior alegria, na verdade era uma jardineira que a gente alugava. Fazíamos uma vaquinha e íamos. Jogamos também em Trindade, Bonfinópolis, Nerópolis, Hidrolândia, Bela Vista, Vianópolis. Foi muito bom esta época.

Jornal Criméia – João Ferrinho, estamos chegando ao final da entrevista. Vamos então ao depoimento final tradicional do Jornal Criméia. A bola é sua João Ferrinho.

João Ferrinho – Foi tudo muito bom, tenho muitas saudades. Graças a Deus é muito boa a minha relação com o Criméia hoje. Toda vez que venho aqui, as pessoas me cumprimentam, lembram do tempo dos jogos de futebol nos campos de terra. Enfim, fiz muitas amizades nesta minha vida de futebol de várzea aqui no Criméia Leste. Aqui era bom demais. Graças a Deus tenho a minha história aqui no Criméia com o Canto do Rio. A minha relação com o Criméia era tão boa que eles falavam que era o time do João Ferrinho contra outros times, não falavam Canto do Rio. Era muito bom. Eram as festas do Criméia com grandes jogos e muitas histórias. Disputávamos jogos, mas éramos todos amigos. O Natal da Papelaria Natal, o João Pedro da Ritz. Era bom demais. Eu gostava daquilo tudo, era fanático por bola. Ia a todos os jogos no Estádio Olímpico, era a minha diversão e a minha alegria. Se Ganhava um jogo era bom, se perdia era ruim, mas toda a movimentação era muito boa. Saudade eu sinto demais daquela época do Canto do Rio. Hoje, com esta idade de 70 anos, se eu tivesse condição de montar um outro Canto do Rio aqui no Criméia eu montaria, mas eu já estou meio velho e não tenho muita paciência. Naquele tempo engolia muito sapo, ficava com raiva de muita gente, muita gente ficava com raiva de mim, depois todo mundo ficava de bem, enfim era uma grande festa de amizade entre todos que viviam o futebol de várzea no Criméia Leste. Tenho muita saudade do Canto do Rio. Vivi o futebol durante trinta anos da minha vida. Foi muito bom, mesmo não sendo jogador profissional.


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